Avishai Cohen

Avishai Cohen é um grande compositor. Canta lindo desde Aurora. E toca o baixo também de forma especial: o som soa cheio e elástico com seus glissandos não temperados. Seu último disco Seven Seas tem músicas maravilhosas, assim como os dois que o antecederam: Aurora e Gently Disturbed. No show em São Paulo, mostrou algumas ainda não registradas; uma, com melodia meio mântrica, suave e ligeiramente tortuosa que sabe bem fazer, foi a que mais gostei.

Para mim, Avishai nunca se encaixou na categoria de músico de jazz. É um artista pop, um roqueiro sofisticado. Aliás, bom para dançar como poucos. Em São Paulo, contudo, apresentou seu lado jazzista (no mau sentido), com improvisos longos (principalmente do ótimo baterista), que só servem para divertir os músicos (do palco e da platéia). Como é cafona um músico solando um improviso e em seguida o público aplaudindo excitado! Acho que li em algum lugar sobre a diferença do improviso no jazz e no choro nos seus primórdios. Deve-se duvidar dessa igualdade americana, como se a hierarquia não fosse fundamental. Também na música! Nesse ponto, sou mais o contracanto do Pixinguinha, driblando com passos malandros os espaços deixados pela melodia principal.

O show poderia ter sido incrível, mas não foi. Talvez porque era a primeira vez que tocavam juntos ele, o baterista e o pianista (seu grande pianista Shai Maestro não veio), talvez porque simplesmente não estivesse bem disposto (foi a impressão que me deu, que estava meio sem saco, burocrático, batendo ponto). De qualquer maneira, as bonitas composições do início e ele cantando tão inspirado, sozinho com o baixo, Morenika, confirmou para mim a imagem do grande artista que tinha dele. Pode ser isso uma qualidade dos grandes: Nana Caymmi também é capaz de emocionar o mundo cantando assim como quem não está sentindo nada.

O sorriso

Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

Caixinha de Música

Resenha do nosso disco, escrita por André Kano para o site Caixinha de Música: http://bit.ly/iZJa3r

O mundo através dos ouvidos

Quem ouvir com olhos bem abertos o primeiro disco da banda carioca Isadora perceberá que ele é o resultado de misturas improváveis. A eletrônica e musical figuração das coisas tem versos do Alcorão entoados ao lado de um cello; sax sobre a marcação de tambores de candomblé; coro de crianças em uma canção que fala sobre morte ao som de um kazoo; um brega estilizado junto com um instrumental computadorizado e um dub para dançar devagar. Letras em português, espanhol e inglês. Samples, texturas, ruídos urbanos.

A banda reúne Bruno Cosentino no vocal, o colombiano Andrés Patiño na guitarra, Mário Gesteira no baixo, Gabriel Carneiro na bateria e Pedro Tié nas texturas eletroacústicas e no piano. O nome Isadora vem da dançarina de vanguarda Isadora Duncan, uma homenagem e uma inspiração que se soma às influências que ajudam a entender a banda e seu primeiro disco e que incluem Radiohead, Bach, Philip Glass, John Coltrane, Anton Webern, Caetano Veloso e Funk Carioca.

É claro que à primeira vista o trabalho de Isadora pode parecer um amplo experimento, um projeto piloto de testes. Do segundo olhar em diante, ele ficará mais parecido, entretanto, com o resultado de um trabalho de lapidação que mais lembra o acabamento de esculturas barrocas, repleto de nuances, detalhes quase invisíveis, inaudíveis. Em muito, esse detalhamento se deve aos arranjos quase sempre complexos, com muitas camadas de sons e sobreposições para formarem uma coesão harmônica e melódica cheia de vida.

Um bom exemplo é “Milagros de um dios menor”, segunda faixa do álbum. Desenhada sobre um texto do poeta colombiano, Carlos Milán Patiño, ela conta a história onírica de um homem insone que recebe negativa de uma mulher ao seu libidinoso, porém cavalheiresco, convite para o sexo. Bateria de levada jazzística, sax, tambores e congas africanas, e samples criam mais imagens para o poema do que uma trilha sonora para ele.

Na busca por um estilo próprio

Outra característica marcante do trabalho é que, sem uma feição que permita identificá-lo em apenas um estilo musical, as aproximações com estilos definidos são sempre dúbias. “Laura” e “About the world” cumprem bem esse papel, um brega e um dub reggae estilizados. A melancolia e certa angústia de muitas faixas como “Setembro” e “Barroco”, ganham contraposição à vida e luminosidade de “Cala mais”, na abertura do álbum, sensual e libidinosa, e “Vitamina C”.

Letras autorais e empréstimos de poetas com os quais a banda se identifica, além de inserções de ruídos urbanos e muitas texturas eletrônicas fecham as principais características do álbum. A faixa oculta “Fim” tem sons do cotidiano da cidade – buzinas de carros, vozes, aviões. “Serenata” ganhou letra de Eucanaã Ferraz, um dos poetas lidos e relidos por Isadora.

Apesar de tantos elementos que poderiam dar ao disco um ar de inovação, os músicos da Isadora falam mais em inventividade para buscar algo novo em estilo, ainda que repleto de referências ao que já é conhecido ou popular. A eletrônica e musical figuração das coisas é uma espécie de quebra-cabeças em construção, um mosaico composto por peças de muitas imagens diferentes.

“Indivisivel”, Ze Miguel Wisnik

Novo álbum do Zé Miguel Wisnik: http://bit.ly/nfspUS

Lindo desde já, normalmente vai ficando ainda mais bonito. (Tenho essa impressão das canções com harmonias mais sofisticadas, em relação aos chicletinhos simpáticos que gostamos de cara, ouvimos e não queremos nunca mais saber; as canções complexas harmonicamente – não quero dizer complexo difícil, quero dizer Tom Jobim e também Beatles – podem ser ouvidas para sempre.)